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Novas revelações expõem conversas entre Vorcaro e Moraes - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O Banco Master era uma instituição financeira média que cresceu vendendo carteiras de crédito a outros bancos. Em novembro de 2025 ele foi liquidado pelo Banco Central, e seu dono, o banqueiro Daniel Vorcaro, foi preso quando tentava embarcar num jato particular no aeroporto de Guarulhos. A fraude investigada pela Polícia Federal é estimada em cerca de R$ 12 bilhões, associada principalmente à venda ao Banco de Brasília (BRB), banco público do Distrito Federal, de carteiras de crédito supostamente falsas ou sem lastro. O rombo atingiu o Fundo Garantidor de Créditos, a entidade que devolve o dinheiro de correntistas quando um banco quebra — ou seja, chegou a quem nunca ouviu falar do Master.

Nesta terça e quarta-feira (1º e 2/9), o caso deixou de ser um escândalo bancário e virou uma crise do Supremo Tribunal Federal. O ministro André Mendonça, relator do caso Master na Corte, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens extraídas do celular de Vorcaro. Nelas, o banqueiro trata da própria prisão iminente com um contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA" — o ministro mais conhecido e mais controverso do tribunal, relator do processo que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. As mensagens foram reveladas primeiro pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmadas por Folha de S.Paulo, TV Globo e outros veículos. Faltam cinco semanas para a eleição presidencial de 4 de outubro.

Como a PF reconstruiu conversas que deveriam ter desaparecido

Vorcaro não escrevia direto no WhatsApp. Segundo a PF, ele abria o bloco de notas do iPhone, digitava o texto, tirava uma captura de tela e enviava a imagem como mensagem de visualização única — o formato que se apaga depois de aberto. Assim, nem o texto ficava registrado como mensagem, nem a imagem sobrevivia à leitura.

O que o método não previu foi o próprio sistema do aparelho. Cada captura de tela gerava, sem intenção do usuário, um arquivo PDF de conteúdo idêntico numa pasta interna de arquivos temporários. Parte desse material foi apagada poucos minutos depois de criada, mas a extração forense recuperou os arquivos.

A partir daí, os investigadores cruzaram horários: o momento em que a nota era criada ou alterada, a hora da captura de tela, o instante do envio pelo WhatsApp e a conversa à qual o arquivo estava associado. O padrão se repetia — abrir o bloco de notas, modificar, printar, fechar, abrir o WhatsApp, enviar, fechar. Foi essa sequência ininterrupta que permitiu associar cada texto a um destinatário específico. O aparelho, um iPhone 17 Pro apreendido na primeira prisão, teve a criptografia quebrada com o software israelense Cellebrite, de uso restrito a forças policiais mediante decisão judicial.

O que a PF não tem são as respostas. O celular de Moraes não foi alvo de quebra de sigilo, e as mensagens que ele enviou de volta — algumas também de visualização única — não estão em lugar nenhum. O relatório mostra o que Vorcaro escreveu e para quem enviou; o outro lado do diálogo continua desconhecido.

O que Vorcaro pedia: da fuga iminente à intervenção nas investigações

As mensagens se concentram nas duas semanas que antecederam a prisão. Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro relata ter recebido informações confidenciais de gente do Banco Central de que a instituição estaria sob pressão da PF e do Ministério Público para agir contra ele. E escreve: "É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que ai vai tudo pro saco". Segundo a PF, "Andrei" seria Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e "Paulo", Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Em 14 de novembro, três dias antes da prisão: "Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família."

Em 15 de novembro, um sábado: "Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?" e, na sequência, "Acha que segunda já tenho que estar fora?". O "juiz Ricardo" é Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, que dois dias depois assinaria o mandado de prisão. Galípolo é Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.

Em 16 de novembro, sobre a operação que seria deflagrada no dia seguinte: "Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível." E: "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?"

Em 17 de novembro, dia da prisão, às 17h26: "Conseguiu ter notícia ou bloquear?" Horas depois ele era detido em Guarulhos, quando se preparava para embarcar num jato com destino a Malta.

Para Mendonça, as conversas mostram que Vorcaro soube "com significativa antecedência" da decisão que determinaria sua prisão — e reforçam a hipótese de que ele "demandava intervenção junto a autoridades públicas envolvidas nos respectivos processos decisórios". O relatório também registra 12 prints tratando de encontros nos dias anteriores à prisão, incluindo pedidos de reunião na casa de um ou de outro.

O dinheiro que uniu as famílias

Segundo o relatório, os dois se aproximaram no fim de 2023, quando o então ministro das Comunicações de Bolsonaro, Fábio Faria, compartilhou o contato de Moraes com o banqueiro. Em 30 de dezembro daquele ano, Moraes almoçou numa propriedade de Vorcaro em Campos do Jordão, acompanhado de oito pessoas e quatro seguranças; o banqueiro orientou a equipe a preparar uma "experiência completa" e pediu um cantor.

Doze dias depois, Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro e sócia-diretora do escritório Barci de Moraes, enviou a Vorcaro a minuta de um contrato de prestação de serviços advocatícios. Os metadados do arquivo apontam "Ministro Alexandre de Moraes" como autor da última modificação. O contrato foi assinado em janeiro de 2024, por R$ 3,6 milhões mensais e vigência de três anos. As reportagens divergem no total: a PF fala em cerca de R$ 131 milhões; a versão do documento anexada ao relatório registra R$ 108 milhões em 36 parcelas.

Vorcaro tratava esse pagamento como prioridade absoluta. "Não pagaram Barci de Moraes. Não to entendendo isso. Contrato mais importante que temos", escreveu ao tesoureiro do banco. A uma funcionária: "por favor não deixe atrasar um dia (...) Pode pagar sempre, sem nota. Do jeito que for." Em outubro de 2025, ao saber que uma fatura fora quitada por Pix, disse que "não é bom" pagar assim.

Há mais. Em outubro de 2025, o administrador do escritório pediu cartões de crédito do Master para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro; uma executiva do banco perguntou se podia emitir com limite de R$ 300 mil para cada, e Vorcaro respondeu "Ok". E a PF localizou minutas de um segundo contrato, de R$ 50 milhões, em que R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jato Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1. Em julho de 2025, questionada por um sócio de Vorcaro se estavam gostando de usar as cotas, Viviane respondeu: "sim, estamos gostando muito". O escritório afirma que assinou apenas o primeiro contrato e que a proposta das aeronaves não foi aceita.

Em nota, o escritório sustenta que seu setor de compliance consultou Moraes, "na condição de marido da sócia diretora", sobre eventuais impedimentos legais, e que não havia nenhum, porque Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master". Moraes não se manifestou publicamente sobre as mensagens.

A crise dentro do próprio Supremo

Na mesma terça, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a nulidade do relatório. Seu argumento: Mendonça ordenou à PF que identificasse integrantes da "rede de influência" de Vorcaro sabendo que ali havia autoridades com foro no Supremo, e um ministro não pode determinar a investigação de outro. Pela Lei Orgânica da Magistratura, indícios contra magistrado devem ir ao tribunal competente — no caso, o plenário do STF. Gonet acrescenta que juiz não conduz investigação pré-processual: isso cabe à polícia e ao Ministério Público. Gonet é ele próprio citado no relatório, em mensagens do advogado Ciro Soares a Vorcaro, incluindo o custeio de uma viagem a Londres do filho do procurador-geral. A PF não lhe atribui conduta criminosa.

Na quarta-feira, Mendonça confirmou ter recebido Vorcaro "uma única vez", em março de 2025, por iniciativa do empresário, para tratar de um processo sobre precatórios do setor sucroalcooleiro — e afirmou que decidiu contra a posição do banqueiro. No mesmo dia, confirmou ter colhido um depoimento de Vorcaro com o Ministério Público e sem a PF, negando que ali se tenha tratado de Moraes. O presidente do STF, Edson Fachin, disse que tomará as medidas "cabíveis e necessárias" e que "a elevada autoridade do cargo não confere privilégios". Mendonça afirmou que o caso irá ao plenário, em sessão presencial e pública, em data a ser marcada por Fachin.

Repercussão a cinco semanas da eleição

Flávio Bolsonaro, candidato do PL, disse que Moraes "não tem mais condições de permanecer no cargo". Romeu Zema (Novo) falou em prisão; Ronaldo Caiado (PSD) afirmou que Vorcaro "contaminou todos os Poderes"; Tarcísio de Freitas pediu que tudo seja "passado a limpo". No campo governista, Paulo Pimenta e Fernando Haddad defenderam investigação; Simone Tebet pediu que o plenário abra inquérito contra Moraes. A OAB falou em "extrema preocupação"; a Transparência Internacional, num "dos momentos mais graves" da história institucional do país.

Levantamento da Ativaweb DataLab para VEJA aponta que 87,7% das manifestações classificadas nas redes sobre o caso são negativas ou críticas. O El País escreveu que as revelações caíram "como uma bomba atômica"; o La Nación, argentino, falou em "terremoto político e institucional".

Vale registrar o outro lado da mesma investigação: o próprio Flávio Bolsonaro é alvo de reportagem da revista piauí, publicada na terça, que aponta com base em relatório do Coaf um repasse de US$ 1,6 milhão de Vorcaro em setembro de 2025 ao fundo que administrava o dinheiro do filme "Dark Horse", sobre seu pai — contradizendo sua afirmação de que o último pagamento fora em maio.

O que fazer com essa informação

Acompanhe três coisas concretas. A primeira é o plenário: Mendonça anunciou que o caso vai a julgamento colegiado, e é Fachin quem marca a data. Nessa sessão o tribunal decidirá duas questões distintas — se abre investigação contra Moraes e se acolhe o pedido de nulidade de Gonet. Elas podem ter resultados opostos, e confundi-las é o erro mais provável de leitura nos próximos dias.

A segunda é a identificação dos interlocutores. Boa parte do relatório trabalha com interpretação: "Andrei" e "Paulo" são leitura da PF, não confissão de ninguém; o contato "Alexandre de Moraes BRASILIA" é uma atribuição feita a partir da agenda do celular. E o dado central continua ausente: ninguém sabe o que Moraes respondeu, porque o celular dele não foi periciado. Toda manchete que afirmar mais que isso está indo além do documento.

A terceira é o efeito eleitoral, e ele não está onde parece. Christopher Garman, da consultoria Eurasia, avalia que o escândalo não deve mudar o quadro presidencial — não é uma denúncia contra Lula, e Flávio Bolsonaro também tem relação com Vorcaro. O impacto tende a aparecer na eleição para o Senado, casa que processa e julga ministros do STF por crime de responsabilidade. É lá que os pedidos de impeachment de Moraes já existem e é lá que a pauta anti-Supremo entrou na plataforma de vários candidatos. Se você quer entender o desdobramento institucional deste caso, o lugar de olhar em outubro é a composição do Senado, não o resultado presidencial.

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